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quinta-feira, 5 de maio de 2016

Mãe, só tem uma!

Mãe é mãe, e elas tem esta capacidade de nos apoiar incondicionalmente, mesmo que não entendam patavinas o que fazemos. A minha era assim. ERA.

Ela curtia e compartilhava TODOS os meus posts de cerveja sem nem saber o que era uma Stout, IPA ou cerveja não pasteurizada. Um belo dia, ela me ligou e disse: “Me diz o que eu posso pegar de cerveja no seu quarto, porque olha, essas aqui da geladeira não dá mais pra tomar não...”

Sorri e chorei. Por um lado minha incentivadora tinha virado uma nova amante de cervejas especiais; seu paladar tinha apurado e agora ela já não mais tomava Skol. Mas isso também significava uma considerável baixa no meu estoque pessoal, porque ela não brinca em serviço viu...

Minha mãe tem um paladar até que bem amplo. Gosta das amargas, faz cara feia mas gosta. Gosta das escuras mas nunca toma o copo todo. O que ela toma sem “mas” é Pilsen mesmo. Geralmente separo pra ela uma ou outra mais frutada, Witbier ou American Wheat. 

Para ela, a perfeita do dia das Mães será a Vedett, uma witbier belga que eu, por acaso, encontrei no Pão de Açúcar a um preço tão prostituído que não vou poder escrever, ou a censura me pega aqui. Mas estava próxima ao vencimento e pra balizar, com o valor da caixa de 24 unidades que trouxe no port-malas, eu mal compraria 3 unidades...

A Vedett é uma Witbier, estilo que usa trigo não-maltado, semente de coentro e casca de laranja. Uma cervejaria mais comercial na Europa, com ações tipo a da Coca-cola, onde você manda uma foto e eles imprimem no rótulo. Simpático não? Tem ótima drinkability, cerveja de cor amarelo-palha, turva e ótima formação de espuma. Aroma com notas cítricas, evidenciando a semente de coentro que dá um toque condimentado junto com o floral do lúpulo. Baixíssimo amargor, sabor de pão e fermento no retrogosto provenientes do trigo e da fermentação. Possui uma boa acidez seguida do amargor bem leve e agradável, com 4.7% ABV que nem marcam território.

Ano passado dei de presente pra Dona Vânia, essa minha mãe, uma cesta de cervejas; ela, com sorriso na orelha disse: “Olha, eu tenho as minhas próprias cervejas!”

Tão bonitinha, mas meu irmão tomou todas, para seu azar e tormento materno. Este ano ela vai ganhar uma TV, só que ainda não sabe. E pior: certeza que vai me cobrar suas próprias cervejas...

Saúde e vida longa às mamães!

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Duchesse, uma perfeita nunca citada

Sobre mulheres e cerveja, há sim uma favorita.

Sempre me fazem esta pergunta, e minha resposta é que não há uma favorita. Há um estilo do momento, um rótulo que me encantou e repito por vezes. Há a mais comentada, a mais cara, a mais bem-quista. E então que percebi a recorrência em que peço a minha favorita.

Esteve presente na celebração do aniversário, no curso de sommelier, em chopp e garrafa, na loja de cerveja, no encontro com amigos. Sempre lá, eu sempre pedindo, ela sempre me fazendo sorrir. E nunca havia a colocado no hall das perfeitas, sequer citado seu nome: Duchesse de Bourgogne. Por que meu Deus?

Primeiro, um rótulo bucólico. Paz, pássaro, serenidade, seriedade. Pintura, muito amor.
A simplicidade. O rótulo é uma homenagem à Duquesa de Borgonha Mary, nascida no século 15 nos arredores de Bruxelas. Com 20 anos Mary herdou o ducado e ficou conhecida por ser uma mulher com temperamento forte e decidido, que fez com que a França reconhecesse o poder que a província de Borgonha tinha. Mas aos 25 anos a duquesa faleceu em uma queda de cavalo perto da região de Bruges.
Até hoje, é uma cerveja que nos remete à realeza. Não só pelo nome, mas por alguns fatores curiosos, como ter sido servida no casamento real do príncipe Frederik da Dinarmarca com a princesa Mary, em 2004. Coincidência?

Segundo, um estilo diferenciado, que pode ser o primeiro passo ao estilo mais difícil das cervejas, ou completamente mal-interpretado. A Duchesse (não confundam com a Duchessa, da Birra del Borgo) é uma Flanders Red Ale, estilo tradicional da região de Flandres na Bélgica (ou grande-Bruxelas), mais parecido com vinho, por conta de sua cor e sabor acético, ou “avinagrado”. Produzida desde 1885 pela Verhaeghe-Vichte, é envelhecida por anos em barris de carvalho compostos por lactobacilos responsáveis por "azedar" a bebida. Mas o produto final, engarrafado e refermentado na garrafa, é um blend geralmente feito entre três safras, de 6, 12 e 18 meses. Para isso, além do cervejeiro está envolvido o trabalho de um blender especial para esta “alquimia”.

O resultado é uma cerveja delicada porém complexa, de 6.2% de álcool, com aromas adocicados, que remente à cerejas e frutas vermelhas, mas com notável acidez balsâmica. Seu corpo, médio, de tom marrom acobreado, levemente turvo, servido em taças, tem uma espuma de baixa formação e persistência. No paladar, já nem tão doce, explode uma complexidade de gostos, um dulçor de malte mais frutado, uma acidez intensa, melaço e vinagre se equilibrando, notas salgadas de leveduras, amadeirado das barricas, frutas secas e até mesmo taninos suaves, o que a leva tão próximo do mundo do vinho. A Duchesse inclusive é considerada a cerveja que contem notas mais vinificas dentre as cervejas. O final é seco, ácido e ávido por mais um gole.

Além de uma das minhas perfeitas, a Duchesse de Bourgogne é, assim como a Rodenbach Grand Cru, seu “primo-irmão” (uma versão “pour homme” dela, comparando dulçor e acidez), uma das mais conhecidas e importantes representantes do estilo. Gosto de harmoniza-las com sobremesas cremosas sem chocolate, ou quebrando caldos gordurosos.

Hoje já encontramos a Duchesse em versões long neck, mas eu gosto do tradicional, a garrafa rolhada, que está aqui, de abajour, me acompanhando nos estudos.

Perfeita até pra isso!

Santé!



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Deliria, a Delirium feita por mulheres

E para começar no primeiro post do ano bem feminina – antes do carnaval o ano sequer começou vai - vamos de rosa.

Teve uma cerveja, guardada há meses, comprada em dose dupla – e degustada coincidentemente ao mesmo tempo! - que foi presenteada pra uma das amigas que amam rosa (a cor). Foi a Deliria, a Delirium feita especialmente por mulheres. Edição especial feita para o Dia Internacional da Mulher, em março do ano passado. Na realidade não foge muito da receita da Delirium Tremens, a azulzinha – azul é cor de menino! – da Brouwerij Huyghe. Mas é melhor.

Uma vez citamos aqui uma analogia que vou repetir: a mulher foi feita da costela do homem (Porter x Stout - a missão de uma resposta) assim como a Deliria foi feita da costela da Tremens. Novamente no caso destas cervejas, “uma é teoricamente mais forte que a outra, mas no fundo as duas são feitas do mesmo barro e são igualmente complexas. E fascinantes.”

A Deliria segue a mesma “receita” mas foi produzida em evento especial na cervejaria. E, claro, teve sua edição limitada. A Deliria é uma Belgian Strong Blond Ale (uma Ale mais alcoólica e adocicada) que passa por uma segunda fermentação na garrafa e apresenta aromas e sabores equilibrados, com notas frutadas, florais e leve lúpulo. Com 8.5% de teor alcoólico, assim como sua precursora Tremens é bem carbonatada, com espuma bem marcante branquinha, doce, com aromas florais e frutados e na boca um toque de maçã, especiarias e um quase zero de amargor, mas com álcool bem evidente pra quem é mais sensível. Um pouco mais cítrica que a Tremens, e também mais interessante. Não vou seguir a máxima que é uma cerveja para o sexo forte não. Pelo contrário, é uma cerveja feminina, marcante e envolvente. Muito bem vestida, com um rótulo encantador, é ele que dá aquela primeira conquistada – a tal da primeira impressão que fica. Mais doce e mais arrebatadora, seu álcool pode derrubar mais rápido os despreparados.

E, claro, é mais cara.

Mas nada que os homens não estejam acostumados não é?

E por ser rosa, doce, feminina, encantadora e, de novo, rosa, em muitos quesitos ela se torna uma perfeita. Pra celebrar amizade, cores, sabores, cidades e delírios.

Cheers!

PS: Depois desta leitura, vale uma visita no site da Delirium. Há uma versão do site em 3D que dá mais vida ao elefante rosa" :)

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sinos de casamento


Não, não abandonei a busca da cerveja mais que perfeita. O que acontece mesmo são outras buscas: o vestido perfeito, a música perfeita, o bem-casado perfeito... e isso toma muito mais tempo do que qualquer mortal pode imaginar.

E as cervejas, ah bendito líquido proibido na dieta do vestido branco. E eu, que de força de vontade e disciplina não sei nem da teoria, me superei. Abdiquei das farras e desforras da vida de solteira antes mesmo de casada. Mas o noivo, que sabe que compete a paixão com a cerveja, não me deixa longe dela. Casamos em breve na Igreja da Cruz Torta, “coincidentemente” em frente ao Empório Altos do Pinheiros, o favorito, onde ele e amigos farão o esquenta. E foi lá que neste sábado, após a entrevista com o padre – casamento na igreja tem pormenores que até Deus duvida - ele me deu um romântico presente, outro além de dividir uma taça de Delirium e um filé de frango com salada ali mesmo no Empório.


A Geuze Mariage Parfait chamou a atenção, óbvio, pelo nome. A cerveja belga da cervejaria Brouwerij F. Boon se intitula o casamento perfeito entre cervejas Lambic envelhecidas. É uma mistura de 100% de cervejas deste estilo, maturadas em tonéis de carvalho, passando ainda por uma segunda fermentação na garrafa, uma tradição mantida desde 1835. Esta cerveja tem pelo menos três anos de idade quando engarrafada, tanto que meu exemplar tem safra de 2006. É uma cerveja seca, bastante atenuada (baixa doçura), com baixa carbonatação e caracterizada por intensas notas frutadas e sabor especialmente ácido. Sua rolha estoura forte ao ser aberta. Em primeiro momento um aroma de champagne, em seguida surpreendentes aromas de estábulos, cítricos, florais e avinagrado, são tipicamente encontrados neste estilo, resultado da fermentação por leveduras especiais. Cerveja ácida e refrescante, que mascara o ABV de 8%. Muito para quem não bebe há mais de mês.

E ansiosa para o grande dia, que será comemorado em estilo cervejeiro. “Mariage Parfait”!

Tim-tim!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

1 ano de Mulheres e Cerveja. Ai meu Deus!


"A cerveja é a prova viva de que Deus nos ama e quer nos ver felizes."
Benjamin Franklin
"DeuS é a prova viva de que a cerveja nos ama e nos quer ver felizes." 
Catarina

Há um ano, Melograno.

Hoje, 365 dias depois, 78 publicações, 57 cervejas provadas e comentadas e algumas poucas aspirantes à perfeita. Mas se falamos de números, então foram 14mil visualizações de página (nenhuma da minha mãe), onde os posts mais visualizados foram:
  1. Malzbier: Ser ou não ser... cerveja! - 252 Pageviews (e tem gente que nem considera Malzbier cerveja...)
  2. Dizem por aí... - 220  Pageviews  (Cerveja tcheca tinha que estar entre as tops)
  3. milnovecentosebolinhas - 212  Pageviews  (foi uma das perfeitas mais simples)
  4. Fruit de la passion - 131  Pageviews  (Cerveja inédita e que por pouco não vira perfeita e acaba com o blog)
  5. Discutível Perfeição - 130  Pageviews  (questionemos a devassidade de Sandy)

Mais números, foram 113 comentários, de amigos, parceiros, visitantes e indagantes. O post mais comentado foi Cerveja x Chopp, pessoalmente meu post favorito.

E ainda falando em números, foram pelo menos 8 eventos de cerveja, 6 países e 10 cidades percorridos na incansável busca da cerveja perfeita. Foram muitos novos amigos, acontecimentos e novidades. Foram dias e noites de leitura, conhecimento, novidades, muitas risadas, olhares desconfiados, milhões de tentativas de convencimento de que sim, mulher sabe falar sobre cerveja, é capaz de comparar tipos de cevada à ritmos musicais, datas comemorativas, sentimentos e personalidade. Foi uma longa amizade enfim desmistificada.

No topo da lista das perfeitas e dos momentos perfeitos, começamos com a Slava, então Hoerggarden, Innis&Gunn, Delirium Tremens, Basement, Schornestein.

E em exatos 365 dias depois, a busca se iluminou. A cerveja comprada direto na fonte, no paraíso das cervejas, num daqueles momentos inesquecíveis, toma o posto da perfeita. Lembro que eu que queria apenas duas coisas da Bélgica: visitar a fábrica da Stella e ir ao Delirium Café. Não pude me conter quando, no centro da cidade de ruas estreitas e sinuosas, numa Europa sempre em reforma no meio do ano passado, encontrei uma pequena loja de cervejas belgas. 
“Deus!”. Ao entrar e diretamente perguntar pelo rótulo, o atendente sem rodeios me pergunta: “Vous êtes au Brésil?”. “Oui”, respondo no meu francês limitado e engato o papo em inglês. E ele então diz que é a cerveja mais procurada pelos brasileiros, e que percebeu pela maneira de minha pronúncia, que lembrava “God” – Deus, mais precisamente. Por 28 euros, mal conseguia tirar o sorriso no rosto com uma sacola especial na mão. Prometi que seria a cerveja de um momento à altura.


Presente especial para as amigas presentes
E foi,  no Melograno novamente. Porque foi lá que surgiu a ideia, e lá, no melhor estilo Mulheres e Cerveja, foi comemorado, com as mulheres mais íntimas presentes, as que gostam e as que nem ligam tanto para cerveja, mas que sempre estiveram presentes apoiando a empreitada, entre altos e baixos. Um convite foi feito, uma lembrança cuidadosamente escolhida, produzida e à mão embalada e uma cerveja especialmente guardada para uma data especial, levada na bolsa. Muito aconteceu desde então, e então, no encontro comemorativo – e com medo de cometer o pecado de deixa-la vencer – a cerveja enfim cumpriu seu propósito: é a cerveja perfeita. E nem fui eu que disse isso.

Como o próprio nome diz, a cerveja dos deuses. A DeuS Brut des Flandres é umas das 3 cervejas no mundo produzidas pelo método “champenoise”, que a deixa com características parecidas com a de um champanhe.  Sua produção – longa produção, de quase um ano - se inicia na Bélgica, onde puro malte de cevada, água e lúpulo sofrem a primeira fermentação em tanques especiais. Também em tanques sofrem a primeira maturação, conhecida por segunda fermentação. Então o líquido é levado para a região de Champagne, na França, onde recebe açúcares e fermentos especiais, desta vez já na garrafa. Neste momento também recebe uma tampa provisória. 
Nesta etapa se inicia a terceira fermentação. Fica em pupitres maturando durante meses, sendo inclinada para baixo gradativamente. Neste período passa pelo processo de remuage, que consiste em girar a garrafa diariamente, sempre no mesmo horário, aumentando sua inclinação para baixo, até o ponto de estar totalmente de ponta cabeça. Após esta longa maturação, toda a borra e fermento se depositaram no “pescoço” da garrafa. Este fermento é congelado e retirado por pressão da garrafa (imagem). A garrafa é completada com cerveja já pronta para compensar a perda durante o processo e, finalmente, recebe a rolha de cortiça e o rótulo.

A DeuS Brut des Flandres é produzida pela Cervejaria Brouwerij Bosteels. Uma Belgian Strong Ale, suave e elegante do começo ao fim. Nas curvas da garrafa, no toque de requinte de seu rótulo, nas taças flute em que é servida (previamente gelada) e nos trejeitos para servir (entre 2 e 4°C posicionada num balde com gelo e água). Tem uma cor dourada clara, com bolinhas efervescentes bem pequenas, com uma espuma densa, branquinha e borbulhante. No aroma, um cítrico complexo, que entre o lúpulo podemos sentir o frutado de pera, maçã e um quê de hortelã, além de um leve temperado, bem gostoso. E no sabor... 
Momento medo. Sabe aquela clássica que "a expectativa é a mãe da frustração"? Mas quando uma das amigas da mesa, que não liga muito pra cervejas mimimis, disse ao primeiro gole que aquela era a melhor cerveja que ela havia provado na vida, me emocionei (eu estava emotiva). Um sabor refrescante mas muito delicado. Um misto de cerveja com a leveza da Champagne (que de fato pode-se chamar de Champagne, por ter parte da produção na região de mesmo nome), sendo suave e, descendo devagar, podia sentir as micro bolinhas que liberavam seu sabor frutado, doce e fermentado.  A DeuS tem um ABV alto, de 11.5%, muito acima da média das cervejas, mas que quase não sentimos no paladar. Mais no final, mas já com a boca limpa e pronta para o próximo momento.


Uma cerveja única, esperada, porém com um desfecho tendencioso. A DeuS é considerada uma das melhores cervejas do mundo, e claro, perfeita. Por isso, não, a busca não acabou. Não é justo encerrar um propósito com um resultado que todo mundo já sabe. Eu quero mais. Eu quero todas as perfeitas, todas as músicas, em todas as taças, com todas as companhias. Quero a perfeita de todos os momentos, de qualquer momento.

Eu só não quero ser perfeita. Porque eu já sou mulher.

E que venha mais um ano!

Cheers, Saúde, Prost, Vive, Tim Tim!

domingo, 25 de dezembro de 2011

Então é Natal! (Aleluia...)

Depois de muito tempo consegui entender o verdadeiro espírito do Natal. Consegui unir meu lado infantil, que adora as decorações, tem fascínio por árvore de natal, come quilos de panetone compulsivamente e adora dar - e receber - presentes com o perfil da Catarina, que de vinhos natalinos e champagnes passou a provar e conhecer as cervejas especiais da época.

Já na semana passada, em uma visita ao Empório Alto dos Pinheiros, pude começar as degustações festivas natalinas, com a Delirium Noel. Vale lembrar que, nas terras de produção das cervejas especiais de Natal, o clima é outro. O hemisfério norte goza do frio do inverno, flocos de neve dão o toque blasé do Natal do Papai Noel, que se protege então com sua barba, gorro, casaco e botinas. (Pausa para uma oração tipicamente natalina por todos os papais noéis de Shopping brasileiros, que derretem durante o mês de festividades no nosso típico clima de verão)

A Delirium Noel (na realidade, Delirium Noël, assim, com trema, olha que gostoso!) é uma Strong Dark Ale, forte como o nome diz, mas com um toque azedinho de frutas vermelhas, bem leve e encoberto pelo amargor do lúpulo e o caramelo torrado. Ainda, um tanto condimentada. Uma belga que traz a sensação de Nostalgia – e que me encaminha para ter provado todas da família Delirium. Cerveja de alto teor alcoolico como toda Delirium, tem 10% de ABV.

Acompanhando a ceia de Natal, logo após a meia noite, um suculento prato de inúmeros itens natalinos, com passas e castanhas mil, uma BrewDog especial: a There is no Santa. No rótulo, um texto que traduz o espírito natalino e irônico da cervejaria:
“Hark! A limited edition seasonal stout brewed with cocoa nibs and ginger stems. In the true spirit of Christmas ’cheers’ we at BrewDog have taken it upon ourselves to create a Santas’s little helper for all those battling through the festive season. Our crack team of elves, penguins and red nose raindeer have been crafting, brewing and perfecting this warming winter stout as a reward for all those driven to the brink and back in the name of Noel. Now all you have to do is don that customary yule tide sweater and find a roaring open fire to enjoy it by. In fact this beer is so good, we specifically advise against sharing it with any chimney intruding, night time visitors. Oh and just remember, this BrewDog’s not for life, it’s just for Christmas.”

A cerveja traduz exatamente a sensação que tive no que considero fim da infância, quando descobri que Papai Noel não existia, não era invisível e não tinha dinheiro pra comprar tudo que eu queria. É amarga, o que hoje eu até gosto – na cerveja. Uma Stout bem sazonal, não é aquela cerveja que vou pedir em outra ocasião senão fazer brincadeiras com o nome. Embora seja MUITO boa, tem um quê de irreverente demais. Temperada, com o gengibre (que faz sucesso na temporada) bem denotado, acompanhado de outras especiarias como canela, baunilha e o peso do lúpulo, além do forte sabor do caramelo torrado, como qualquer Stout. Uma espuma tão densa que parece que seca. A farofa adocicada e o tender agradeceram.

Na tarde do domingo de Natal, almoço de família e mais um exemplar sai da geladeira. Aliás, minha família ainda não entende bem pra quê eu paro de comer pra tirar foto e nem com que propósito tem tanta cerveja “estranha” no meu quarto. Enfim... foi a vez da Christmas Porter, também uma BrewDog. Novamente, um texto interessante no corpo da garrafa, em forma de poema:
"An Ode To The christmas Porter:
Hark! The sound of hurried footspteps come
The countdown to Christmas has begun
The hijacked season of joviality
That's more about consumers than cordiality
Yet the Yuletide frenzy wasn't always this way
When a non-nanny state made you work Christmas day
Like the porters of London who toiled by the river
Continuing to graft with hands ass a-shiver
But whenever shift's end did begin to near
The porters would reach for theis namesake beer
So if the numb gnaw of winter has begun to bite
Or the wish lists of some are enough to cause fright
Just pick yourself up a reward as you go
And if you need an excuse, the porter said so." 

A Christmas Porter é uma versão da Alice Porter, que saiu de linha há algum tempo. Uma Porter de espuma densa – mas menos que a There is no santa - com cacau, raspas de laranja, gengibre e pimenta. Sim, pimenta, bem forte, bem sentida, bom colocada no rótulo e que chama atenção: chili. Aliás, o pessoal da BrewDog não para de inventar nas receitas das suas cervejas, que têm como características ser um chute no estômago de tão fortes. Esta dá até aquela travada na boca de tão amarga, tem um final seco, uma queimadinha leve na ponta da língua, o torrado característico das Porters e o chute da BrewDog. O que a faz muito boa!

O Natal acabou com a companhia de amigos em casa, rodeados de Heineken e Stella, e finalizando com aquele licor de cerveja comprado na Eisenbahn na Oktoberfest – o que, claro, vai virar um post. Um Natal agradável, cheio de surpresas, descobertas, presentes (entre eles as BrewDogs acima) e boas risadas. Ah, e muita, muita comida, mérito de Amélia, aquela que cozinha.

Ho ho ho!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Vai Vivi!!!!

Mais um começo de semana, nem tão tranquilo, já com um convite a postos: a Etapa Brasil do World Draught Masters Stella Artois. Seria nesta segunda-feira, 03 de outubro, que o representante Brasil seria escolhido para representar o país na final em Buenos Aires em 26 de outubro, competindo com outros 27 países. E lá fui eu novamente presenciar tal façanha, bem acompanhada de um amigo (já que a equipe feminina declinou) e com muito a conversar, conhecer assistir.

O local do evento, o Bourbon Street em São Paulo, foi uma excelente opção. Hostess elegantéeeerimas em todos os cantos, muitos e muitos garçons circulando com bandejas carregadas de chopes Stella Artois que mantinham nossos copos sempre – sempre – cheios, quitutes, canapés e acepipes muito saborosos e jazz. Muito jazz. 
E foi entre jazz, tango – Argentina né – e um pouquinho de Charles Chaplin, que eu tive o prazer de conhecer as meninas do Chat Feminino, os meninos do O Clube da Cerveja e enfim pessoalmente o @senarafa, da assessoria da Ambev. E a Catarina distribuindo a rodo o novo cartãozinho, tava que era um sorriso só! :D

Os concorrentes – de 21 bares de São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul – se apresentavam em grupos de 4, com direito à apreensão de quartas de final, semifinal e a grande final. Sim, apreensão, afinal eu estava super na torcida da Vivi, a única mulher desde as quarta de final, que foi ficando (e eu twittando), ficando (e eu twittando) e venceu! Alegria, alegria, a Vivi, além de uma graça de simpatia e linda, tirou o chope Stella com a maior maestria, seguindo todos os 9 passos e complementando com o sorriso que com certeza está no rosto até agora! A competição avaliou se os participantes seguiram à risca os nove passos do ritual de servir o Chopp Stella Artois. Além do respeito ao ritual, qualidade no serviço, habilidade, destreza e simpatia foram critérios eliminatórios.

A Vivi – Vivian Aline Salmeron – é bartender do Charles Edward, bar aqui em São Paulo há 8 anos, e já venceu a etapa Brasil em 2008, quando disputou o mundial na Bélgica (justo onde né?). Ela diz que seu segredo para vencer é “dedicação, tratar o chope como algo precioso, levar a sério o ritual dos nove passos e conhecer a história da bebida belga”.
Catarina e Vivi, pelas mãos de um fotógrafo militar já bem embriagado!

E o Mulheres e Cerveja vai continuar super in nessa competição e torcer MUITO para ter a primeira representante brasileira no hall da fama da Stella Artois.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

World Draught Masters - Stella Artois

Um começo de semana tranquilo e sem nenhuma novidade, algumas cervejas novas em folha compradas para degustação e então recebo um convite especial: o Encontro de Ativação do World Draught Master de Stella Artoir, que aconteceu dia 27 de setembro, na Botica do Quintana.

Claro que aceitei o convite sem pestanejar. Além de aceitar, fui a fundo sobre o assunto... o World Draught Master está em sua 15º edição, e a etapa final será dia 26 de outubro em Buenos Aires. O evento consiste em eleger o melhor tirador de chopp Stella Artois do mundo, aquele que segue com maestria o chamado “Nove passos para tirar o Chopp Stella Artois”. Curiosa, a primeira coisa que fiz foi saber sobre os vencedores e constatei: tem mulher sim entre os vencedores! Em 6 edições tivemos mulheres representando países como Bélgica, Nova Zelândia, Romênia, EUA, Austrália e Itália. Ah mulheres!

No evento, fomos apresentados ao ritual e conhecemos um pouquinho mais sobre a marca – já bem intima de Catarina, conforme você a vê abaixo admirando a fábrica em Leuven, Belgica.


Tirar o chope Stella foi simples mas carregado de emoção. Sim eu tremia. Em partes porque cerca de 100 pessoas me olhavam, em partes porque eu estava sendo julgada numa brincadeira para que pudéssemos testar e aplicar nossos conhecimentos. Mas principalmente porque ao pegar o cálice, todo um mundo voltou à memória. O bar se modificou, ao meu redor eu pude ver o pub, onde passei tantas noites de sexta e sábado, tirando por vezes centenas de pints numa só noite. Claro que não eram perfeitos, não eram milimetricamente avaliados, mas a sensação foi forte. Tão forte que eu voltei, no final do evento, para me testar ainda mais e fazer como os profissionais do campeonato: tirei dois chopes de Stella ao mesmo tempo, ambos com o colarinho recomendado, servido e tirado conforme o ritual. E por falar em ritual, apresentemo-lo:

1.O Cálice
O cálice foi criado para garantir a qualidade de Stella Artois em todos os detalhes: sabor, cor, aroma e espuma. Representa o requinte e a tradição de Stella Artois em todo o mundo.
2. A Purificação
É preciso ter certeza de que o cálice está limpo, livre de qualquer resíduo, inclusive de marca de dedos. Aqui o segredo é lavar bem, não segurar no corpo do cálice e sim na base, onde tem o brasão da marca. E para finalizar, secar o copo num rápido movimento segurando com a boca para baixo, evitando assim que fique água da lavagem dentro dele.
3. O Sacrifício
É, parece desperdício, mas o primeiro jato da chopeira não deve ser servido. O liquido que fica retido nos bicos não está fresco, e devemos garantir a qualidade desde a primeira gota.
4. A Alquimia
Deve-se inclinar o cálice à um ângulo de 45° e posiciona-lo abaixo do jato. Quando o chope atinge o cálice e começa a circular é criada a proporção ideal entre a espuma e líquido.
5. A Coroação
Um chope da qualidade de Stella Artois merece muito mais que um colarinho. Merece uma coroa, que é formada com o retorno do cálice para a posição vertical, quando este estiver com a metade do seu volume preenchido. A coroa evita que o líquido entre em contato com o ar, preservando seu sabor, aroma e temperatura. E tem gente que pede chope sem colarinho achando que está bebendo menos...
6. A Reverência
Chegou a hora de fechar a torneira. O chopeiro deve fechar rapidamente a torneira e retirar o cálice, sem deixar que caiam respingos. O líquido e o cálice jamais devem tocar a torneira.
7. A Guilhotina
Uma etapa não muito vista, mas além de importante, muito bonita de se ver. É onde o chopeiro deve retirar o excesso de espuma, utilizando-se de espátula especial de Stella Artois, inclinada num ângulo á 45°, passando-a sobre o cálice bem apoiado no balcão para retirar as bolhas maiores. Isso garante que a espuma dure mais tempo. Depois a espátula deve ser colocada num outro copo, com água limpa. Sem força, sem delicadeza, apenas na velocidade e com o toque ideal.

8. A Regra Inviolável
A coroa como vimos tem a importante tarefa, é fundamental para garantir o sabor e o aroma de Stella Artois. Além disto, ajuda a manter a sua temperatura. A altura ideal é de dois dedos: mais ou menos 3 cm.

9. A Premiação
Vire a marca do cálice para o cliente, segurando pela base e com a logomarca voltada para o consumidor. Enquanto ele se delicia com a sua obra prima, deseje “Saúde!”. 
Quer ver como foi fácil? Sim, esta sou eu:


Mesmo que “longo”, é um processo simples e rápido. O evento ainda deixou mais que o esperado: um livro sobre o World Draught Masters, um lindo cálice de brinde e mais: hoje é a etapa final Brasil, que conta com a participação de 21 bares de São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Será no Bourbon Street, e estarei presente com amigos convidados para curtir, apreciar e matar mais um pouquinho de saudade da época em que estava do outro lado do balcão.

Ou seja, o assunto ainda não acabou...

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Entre delírios, flores e cervejas...

Era o que eu queria: fazer o que desse vontade... E deu vontade de ir para a Bélgica, assim... amanhã! E eu fui, de trem, curtindo a paisagem, entre sonecas e campos franceses, para passar dois inesquecíveis dias na terra da Deus, da Stella, da Leffe e de tantas outras cervejas aspirantes à perfeita.

Só que quando a gente faz as coisas sem planejamento, temos 50% de chance de dar certo. No caso, a visita à fábrica da Stella ficou nos outros 50%, porque precisava ser marcada com dois dias de antecedência. Mas como, se eu tinha decidido a viagem há menos de 12 horas?
Tudo bem, então eu decidi que tomaria uma Stella em cada bar da cidade. Leuven, mais especificamente, a 30km de Bruxelas, uma cidade de pessoas solícitas e clima com cara de eterna primavera (flores amarelas combinavam com meu Allstar viajante).

Minha visita à Bélgica tinha 3 grandes objetivos cervejeiros: a fábrica da Stella, o Museu da Cerveja e uma noite no Delirium Café. Este último o único concluído com sucesso, já que o Museu da Cerveja e meus horários de viagem não combinaram muito bem...

Justo eu, que nunca me imaginaria indo “pra balada” sozinha, coloquei meu salto alto, fiz minha maquiagem e fui, despida de qualquer medo ou pudor, direto para o balcão do bar. Lá me sentei, apreciando o som do local – era uma noite de Jam Sessions – e analisando o menu de cervejas como quem devora um livro de história. Por pura curiosidade, porque eu já sabia qual seria minha primeira pedida: a Delirium Tremens, que eu esperava ansiosa para poder prova-la “em casa”.

Foto Delirium Café
O Delirium Café, em Bruxelas, é famoso pela sua carta de cervejas, que em 2004 entrou para o Guinness Book como a maior carta de cervejas do mundo. Hoje tem franquias até mesmo aqui no Brasil, no Rio de Janeiro (única nas Américas) e ainda outras 5 unidades na Bélgica, Suécia, França, Japão e até numa ilhota por perto de Madagascar, no sul da África, chamada St. Pierre (juro que este é meu próximo objetivo de viagem). A matriz em Bruxelas está mais para uma vila de bares e pubs do que um bar em si. Com muitos ambientes, desde pista, palco, balcão, mesas nas áreas externas, lojas de souvenirs e cervejas, escadas e mais escadas, portas e mais portas. Vila esta de paralelepípedos muito bem decorada, com seu elefante rosa estampado em todos os lugares e um ar de anos 50 por todos os lados. Um lugar para passar o dia inteiro e ainda assim não conhecer tudo. Enfim, o melhor bar do mundo com o melhor garçom do mundo! Ele me deu um copo da Delirium e ainda me defendeu de um francês chato que não parava de me atazanar. Um brinde ao Marc!



Mas falemos da Delirium Tremens, cerveja que nomeia o bar e vem de nada menos que uma psicose causada pela abstinência ou suspensão do uso de drogas ou medicamentos, freqüentemente associada ao alcoolismo. Entre os sintomas são comuns, além das tremedeiras, confusões mentais onde alucinações táteis e visuais fazem com que os pacientes “vejam” insetos e animais asquerosos próximos ao corpo. Sim, você delira e vê um... elefante rosa! Nada mais cabível para nomear esta cerveja, uma Belgium Golden Strong Ale que tem um teor alcoólico de 9% - o que também explica o fato de eu ter ido sozinha e voltado com 6 novos amigos com direito a after party...

A Delirium Tremens é bem encorpada, com uma cor dourada incrível e um sabor frutado com uma finalização bem amarga, o que não compromete em nada seu sabor. Já pelo aroma pude perceber que aquela seria a cerveja que “subiria” rápido, portanto, apreciei devagar. Como esta veio do tap, não tinha rótulo ou garrafa para apreciar, mas – melhor ainda – uma revista com todas as cervejas existentes no Delirium Café fez as vezes para saber mais sobre ela: “Esta loira perfeita acentua as qualidades de um lúpulo excepcional e maltes de luz diferente. Oferece pontas afiadas de amargura em seu rosto e revela um casaco surpreendentemente maltada. Sua conclusão é combinado com um tom de amargo e picante, sem toque de agressividade. Ela representa a lager forte em sua melhor aparência. Ela foi coroada de cerveja campeã mundial em 1998.” Palavras da própria. Pra mim, uma excelente cerveja que abriu caminho para alguns outros rótulos, todos belgas (foi neste dia que fui tentada a provar a tal Floris de manga, a cerveja mais enjoativa da humanidade).

Enfim, serve como aviso: Delirium Tremens é uma condição potencialmente fatal, principalmente nos dias quentes e nos pacientes debilitados. Portanto, nada de abstinência!

Ah... O copo... ficou em outra balada na sequencia do Delirium Café. Onde os garçons não são tão legais...