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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Cerveja velha de guerra!

Pra falar da perfeita de hoje a gente volta um pouco no tempo... Primeiramente, 2008, o ano em que uma garota de sorriso largo e inglês macarrônico começa a trabalhar em um pub tradicional inglês, pertinho da famosa Picadilly Circus (ou, para os brasileiros atentos e turistas, perto da Lillywhites. Vcs sabem do que falo). Lá que conheci  - provei e odiei – a cask ale.

Cask ales, ou as “Real Ales”, são cervejas não pasteurizadas e não filtradas, condicionadas (inclusive na refermentação) e servidas a partir de um barril sem adição de pressão de nitrogênio ou gás carbônico. Para servir, já que não há pressão, uma torneira especial é utilizada, com bombas manuais ou elétricas – adoro as manuais, que são hidráulicas -  e dão aquele charme ao servir. Por estarem na temperatura ambiente e não terem pressão, apresentam uma carbonatação mais baixa e preservam assim suas características sensoriais. São mais terrosas, denotando o forte aroma de lúpulos ingleses, e os maltes e fermento aparecem nítidos e frescos. 


Na prática, falamos de uma cerveja quente e choca (definição honesta de quem tinha acabado de conhecer uma cerveja “diferente”). Na teoria, falamos da Real Ale, defendida pelos tradicionalistas como a cerveja de verdade. As Cask Ales são a base de toda a tradição cervejeira britânica. Com algumas modernizações à parte, os métodos são os mesmos utilizados há séculos. Esta tradição é tão forte que após sofrer um relativo declínio no final do século passado, um movimento de consumidores que buscava resgatar e preservar esta cultura chamado “Campaign for Real Ale” (ou CAMRA) exerceu com sucesso grande pressão política e cultural no mercado britânico. As Cask Ales hoje trazem até um selo do CAMRA que lhe dão notoriedade e respeito. Hoje, entendendo um pouco mais disso tudo, lembro-me dos festivais do pub e das minhas camisetas de uniforme com este selo que eu nem “conhecia mas hoje considero pacas”. Por enquanto, não temos Cask Ales no Brasil mas....

Eis que entra a Spifire.
Cerveja carregada de história, valor e muito sentimento. Feita pela Shepherd Neame, a cervejaria mais antiga da Inglaterra, que começou sua produção em 1698 (nome de uma de suas cervejas).  A Spitfire foi lançada em 1990, ano de comemoração dos 50 anos da batalha da Grã-Bretanha, para angariar fundos para ajudar os feridos e prejudicados em guerra, como soldados, filhos de pilotos e afins. Seu nome vem do caça britânico Supermarine Spitfire, que ficou famoso pela sua performance, mas principalmente por levar às tropas na Normandia barris de cerveja na segunda guerra. E essa é a melhor parte da história: imaginem que numa guerra, receber suprimentos de primeira necessidade já é complicado, então o que dizer sobre cerveja? Foi quando os pilotos do Spitfire da Royal Air Force (força aérea britânica) tiveram uma idéia... Como o Spitfire tinha suportes sob as asas para bombas ou tanques,  veio a brilhante ideia de substituir as bombas por barris de cerveja. Além disso, com o Spitfire voando alto o suficiente, o ar frio em altitude gelava a cerveja, tornando-a pronta para o consumo no momento da chegada.
Em tempo, uma variação deste método foi utilizar um depósito de combustível de longo alcance, modificado para transportar cerveja em vez de combustível. Esta modificação recebeu uma denominação oficial “XXX”, que, ainda, também dá nome a mais uma cerveja. Conhecem?

Bom, mas voltando a Spitfire em um dos posts mais longs da história do MC.... Uma cerveja do estilo Kentish Ale. Paremos novamente.

Kentish Ale é uma denominação de origem, afinal, na Inglaterra os melhores lúpulos são plantados na região de Kent, mas apenas as cervejas produzidas em Kent podem ser chamadas de Kentish Ales. Ainda, foi em Kent que ocorreu a batalha da Grã-Bretanha, uma batalha aérea entre a Luftwaffe (força aérea alemã) contra a Royal Air Force durante a segunda guerra mundial.

A Spitfire, seguindo este estilo, é uma das mais clássicas e tradicionais cervejas Ale inglesas. Uma infusão de 3 lúpulos de Kent conferem uma bitter autêntica, cor de cobre, baixissima carbonatação, espuma bege e pouco persistente, aroma terroso carregado de frutas e lúpulo. Aliás, quanto lúpulo, de sabor, aroma e origem!

E a novidade é que, mesmo não tendo a Spitfire em cask, agora a teremos no Brasil em barril mesmo, o tal do keg. Já a temos, há algum tempo, engarrafada. Deve chegar por aqui em algumas semanas, o que, acreditem ou não, dá uma bela diferença no sabor, deixando-a mais fresca, já que não precisa ser pasteurizada como na garrafa. Mesmo que seja um pouco mais carbonatada, já que em keg há adição do gás, ainda é a Spitfire velha de guerra! ;)

Para quem tiver a oportunidade de provar a Spitfire em cask lá na gringa, é uma experiência válida e incrível. Nosso paladar – feminino e cervejeiro – amadurece, e hoje aquela quente e choca que me fazia caretas é uma cerveja respeitada e tradicional! Tê-la em chopp aqui será voltar um pouquinho no início da minha paixão, e é um acalanto pra aguardar minha tão esperada próxima viagem ao velho mundo – e velhos tempos.

Cheers!

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Eu sou Gordelícia!

Ok, muita gente pode não concordar, mas sou sim uma Gordelícia. Mesmo não estando na minha pior forma, nunca me sentirei magra. Aliás, tirando a minha mãe, acho que mulher nenhuma se sente, né?

O fato é que sempre levantei a bandeira de que mulher é magra pras outras mulheres, que homem gosta é de ter onde pegar, onde apertar. Sempre defendi a “teoria da picanha”...

Teoria da picanha é que devemos todas ser uma carne nobre. Todo homem adora picanha, o melhor corte da carne. Alguns gostam da picanha com a gordura, dizem até que dá mais sabor à carne. Outros, mais fit, retiram a camada de gordura. Dizem que mata! O importante aqui é sempre focar o público-alvo. O foco é nos que querem mais sabor e menos mimimi. Meu público nunca foi o mundo fitness. Nunca tive vergonha de mostrar – a sós - minhas pequenas saliências. Porque existe espaço pra todas, o importante é sempre ser uma carne nobre.

Mas aqui falamos de... cerveja! E todo homem que gosta de uma boa picanha gosta de uma boa cerveja.

Sim, eu sou Gordelícia. Sou Urbana na realidade. A Urbana é uma cervejaria paulista, metropolitana, do Jabaquara. E criativa, muito criativa. À sua frente o mestre-cervejeiro André Leme, que tem as criações de rótulos pouco convencionais, de desenho criativo e receitas inovadoras. A Gordelícia é o carro-chefe da cervejaria, que ainda conta com rótulos como Refrescadô de Safadeza, Boo!, Trem Bão, La Sorciere, Sporro, Piscadinha e o último lançamento, a Prima Pode. Posso afirmar – tentando ser imparcial - que todas são perfeitas. Cada um no seu quesito: tem a do meu rótulo favorito, tem a da minha receita favorita, a do nome favorito, a que eu vendo mais.... E tem a Gordelícia, que é de tudo um pouco.

Esta gordinha seduz. Seduziu até o homem que não gostava de cerveja, que busca proteína e passa a noite regado à energético. Encontrou nela proteína e energia. Intensa, encorpada, doce. Uma cerveja com todos os atributos femininos, que passeia na boca, que revela sabores. Das frutas tropicais brasileiras à levedura belga, ela percorre cada cantinho da boca. Seu aroma? Perfume, não aroma. A cor? Clássica. A espuma? Marcante. O alcool? Presente e para derrubar os que não estiverem preparados para seu golpe de perna: 7.5% de abv. Uma Belgian Strong Golden Ale, de cor amarelo-palha, tem adição de malte de trigo e cereais flocados, trazendo corpo e volume. No aroma, cravo e banana. No sabor, baixo amargor, textura de pele macia – esta gordinha usa monange! – com um final adocicado.

Perfeita. Pra comprar, pra vender, pra beber, pra presentear e até mesmo pra seduzir. De mulher pra mulher.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Branca de Neve, com cravo e canela!

Que eu sou uma mulher de muitas fases todos sabem. De roupas a perfumes, eu cismo com cores, sabores, músicas... e cervejas! Há pouco tempo estava numa fase witbier. Comprando Hoergaaden no Pão de Açúcar e Wäls Witte no Delirium, fiquei quase um mês presa na cerveja branca de toque cítrico. Tudo começou com a perfeitíssima Blanche Neige, que é de quem falo hoje. Sim, já adiantei: ela é perfeita.

Naquele mesmo jantar harmonizado do “top sundae”, a provei pela primeira vez, e confesso, algumas vezes depois. (E de tão inebriada, fui além na linha e, audaciosa, um bolo de aniversário foi feito. Mas esta é outra história. Escrevo sobre isso logo mais.)

Estamos falando da Dieu du Ciel!. Assim mesmo, com exclamação. Micro-cervejaria canadense, de Quebec, de receitas originais e, repetindo a palavra, audaciosas.  A cervejaria artesanal foi inaugurada em 1998 por Jean-François Gravel, que acredita fortemente em cervejas que levam ao caminho da inovação e caráter. Com receitas interessantes, por exemplo a híbrida imperial Stout/Saison colaborativa com a Shiga Kougen no Japão, ou a sua Rosée d'hibiscus, uma cerveja rosa/laranja de trigo fermentada com flores de hibisco, vemos que a Dieu du Cieu! não têm medo, é ousada e interessante. Muito interessante. É considerada a cervejaria número 1 do Canadá e hoje a 13º melhor do mundo. Tudo porque dentre as mais de 12.000 cervejarias cadastradas no site RateBeer, a Dieu du Ciel! foi eleita entre as 15 melhores do mundo em 2013. Ainda, no top 50 de cervejas canadenses feito pelo mesmo site, aparece 11 vezes, ou seja, é um grande nome no mercado mundial de cervejas. Três de suas cervejas têm nota 100/100 no site – que é um dos portais de referência no mundo cervejeiro.

E eu comecei – a beber e escrever – com a perfeita e exótica Blanche Neige (Branca de Neve). Uma Imperial Witbier que, além das clássicas sementes de coentro e cascas de laranja características do estilo, têm adição de especiarias. É produzida apenas uma vez ao ano, para aquecer – e aquece, com seus 8,3% ABV – os meses de inverno canadense. Foge do típico, tirando espaço do tradicional sabor do trigo e cítrico abrindo espaço para uma explosão de... festa junina! Desculpem-me os cervejeiros clássicos, mas foi esta mesmo a emoção. O alto teor alcóolico e os aromas marcantes de cravo e canela me levaram direto para sentar ao lado da fogueira tomando algo muito melhor que quentão.
 De cor amarela forte e viva, com espuma boa e branquinha, a Blanche Neige domina o copo com seu aroma de cravo, canela, notas cítricas doces e um frutado intenso de pêssego. No sabor, malte e um “azedinho” proveniente das leveduras, então um sabor seco e levemente salgado – típico da witbier – contrasta com o aroma doce e fecha o paladar, com um levíssimo amargor e um quê picante que incita o próximo gole. Deixa um retrogosto doce, cravo e canela ainda dominando a cena mas com a sedução do álcool. Quem está com água na boca?

Cerveja de inverno, rótulo de inverno, tomada no meio de uma primavera que trouxe uma noite fria e perfeita para que a Blanche Neige entrasse no hall das minhas perfeitas. Ao lado de uma Belga, de uma Escocesa e de uma Brasileira, esta Canadense hoje se exibe pretensiosa e cheia de charme neste hall da fama da Catarina.


Santé!

domingo, 30 de março de 2014

Catarina no país das Maravilhas (Brooklin Brewery)

Cada viagem, uma cervejaria local.

Esse é o lema de cada viagem, programada ou não. E às vezes são as viagem não programadas que trazem os momentos mais felizes.

O fato é que fui comprada. Num relacionamento onde um ama e o outro odeia carnaval, o meio termo às vezes surpreende. E eu troquei 4 dias de samba, suor e cerveja por 4 dias de neve, frio e óbvio, cerveja. Fui “avisada”, num ticket quase que surpresa, na quinta-feira antes do carnaval, que iríamos para Nova York. Mala de botas, cachecóis e casacos pronta, embarcamos no melhoooor estilo American Airlines e chegamos lá, num sutil -6C. A programação da viagem, feita nas 24 horas que antecederam a decolagem, veio uma luz: Eu.Vou.Visitar.A.Fábrica.Da.Brooklyn.

Meu Deus do céu! Então a ansiedade bateu. Já visitei muitas cervejarias, em muitos lugares, mas esta... Não sei dizer se era por ser a Brooklyn, que já tinha tomado tantas vezes, por não ser tão comercial, ou se era porque era NY. Apostas? Juntemos os dois e lá estava eu, em pleno domingo de carnaval, de casaco, cachecol, bota, luva e gorro, botando minha câmera pra tirar fotos cinzas, verdes e douradas.

A Brooklyn Brewery é carregada de uma história sonho de consumo de qualquer designer. Cervejaria fundada em 1988 por dois amigos que abandonaram seus empregos pra viver de cerveja (sonho), batizaram a marca após conseguirem alugar um galpão de distribuição nos “arredores” de Nova York a cerca de U$1 o metro quadrado, já que a cidade estava em crise e o bairro fadado à derrota. A então Brooklyn Brewery precisava de uma logomarca. O amigo e designer gráfico Milton Glaser, mais conhecido como o criador do logotipo para a campanha “Eu amo Nova York”, foi convidado para criar o logotipo da empresa e sua identidade. Sem muita grana e com uma excelente visão de “ninguém fecha um bom negócio sem uma ou duas cervejas na cabeça”, os sócios convenceram o designer amigo a fazer a marca por uma humilde participação nas vendas das cervejas. Hoje a Brooklyn distribui para cerca de 25 estados e 20 países. Bom negócio, eu diria...

Cervejaria crescendo, o comércio local impediu que a Brooklyn saísse do bairro (precisavam de mais estrutura para engarrafamento e distribuição)  e lhe permitiu realizar uma expansão 6,5 milhões dólares da cervejaria em 2009 – com o crescimento da Brooklyn, todos os comerciantes do bairro tiveram medo que o bairro do Brooklyn voltasse a ser o mesmo distrito industrial abandonado dos anos 80 e investiram neste crescimento. Outro bom negócio, eu diria.

Após esta expansão, hoje a Brooklyn é a cervejaria artesanal que mais exporta nos EUA. E hoje, visitar o bairro do Brooklyn foge totalmente da rota turística de Manhattan, mas vale a pena. É lá onde os alternativos de NY vivem, e onde antigamente o bairro era alvo de piadas dos nova-iorquinos e reino dominado pela máfia, e é “graças” a cervejaria (entre-aspas, claro) que o bairro hoje chama a atenção cultural e gastronômica de Nova York.

Aqui já falamos dela logo no começo da delícia de IPA favorita do Chefe Ali e sobre a Sorachi Ale (que virou pôster lá em casa). Hoje vamos falar de quem não é exportada, logo especialmente consumida dentro da cervejaria: A Brooklyn Silver Anniversary Lager. Era uma das especiais do dia (uma outra veio na mala pra depois), comemorando 25 anos da cervejaria e o rótulo é feito por artistas locais, celebrando também as bodas de prata do renascimento cultural do Brooklyn. A cerveja é refermentada na própria garrafa, e seu sabor se preserva o mesmo hoje ou mesmo em anos. Inspirada nas cervejas do século 19, é uma versão doppelbock da Brooklyn Lager original de 1988. Com aroma doce e frutado, exala uma mistura de caramelo do malte torrado e um toque de especiarias – o que eu particularmente já esperava, vendo o tom nebuloso e vermelho-alaranjado do corpo, bem colocado na taça Brooklyn que veio pra casa. Uma espuma (creeeme) bege clara, não muito persistente. Forte mesmo para aquele inverno, doce pelo malte frutado mas amarga na medida denotando presença do lúpulo, com final prolongado seco, com um retrogosto amendoado.

Li algumas resenhas locais sobre esta edição e algumas palavras como “surpreendente”, “maravilhosa” e “nobre” me ajudaram muito no julgamento de PERFEITA da viagem. Achei que pudesse ser um tanto parcial por toda a aura da viagem, pelo encanto de estar de volta à Big Apple ou qualquer sentimento de êxtase que trouxesse mais brilho do que o rótulo merecia. Mas não, estava sendo realista mesmo.

Tão perfeita quanto Nova York, sob frio, neve e passeios congelantes pode ser. Pra quem gosta, sempre perfeita.

Fábrica da Brooklyn - mais fotos da visita no facebook!
Cheers!

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Catarina no país das maravilhas (Carlton & United Breweries)

Parece que foi ontem que escrevi por aqui pela última vez... então percebo que na realidade faz meses. Da série coisas da vida que pareciam mais fáceis na minha cabeça, manter o blog lá do outro lado mundo não deu muito certo. Outra coisa que parecia mais fácil era voltar a morar fora. A saudade desta vez bateu muito forte e não resisti, voltei para o Brasil. Na bagagem, mais experiência, alguns calos e boas cervejas.

Mas a Austrália deixou boas memórias. E uma das melhores foi a visita à Carlton Brewery, maior e mais famosa cervejaria da Austrália. Por um momento pensei em largar tudo e fazer um curso de Brewing nos arredores de Melbourne, mas a razão falou mais alto. Por isso a estada em Melbourne durou somente 4 dias, intensos e inesquecíveis.

A Carlton & United Breweries é uma cervejaria australiana fundada em 1850, sua fábrica fica próximo ao gostoso bairro de Richmond, em Melbourne, Victoria. É a maior cervejaria, produzindo muitas das bebidas de maior sucesso da Austrália, incluindo a best-seller Victoria Bitter, que falo mais abaixo. Outras de suas obras-primas são a conhecidas linhagem das Carlton: Draught, Dry, Cold, Midstrengh e Black, Melbourne Bitter, Crown Lager, Pure Blonde, Fosters e a sidra Strongbow, famosa por ali!

Pé ante pé, vamos falar destas famosas perfeitinhas "aussies", que mais que uma cerveja perfeita, me proporcionaram um dia perfeito. Pra começar que a visita foi feita bem à Brasileira, de última hora. Isso porque a visita teria que ser agora, tipo ao meio dia, e teria quinze minutos para chegar lá. No meu cronograma de viagem a Carlton era só no último dia, mas quando liguei pra agendar descobri que estaria fechada. A guia, típica australiana simpática a amável (sério, adoro!) prometeu que o grupo me esperaria chegar. Bolsa, câmera, celular, café e táxi!!! Ao cruzar o portão, me chamaram pelo nome e me guiaram ao grupo. "Are you the brazilian who write about us?"
"Y-yeah", disse, um misto de orgulho e vergonha por ser mais uma brasileira atrasada...


Da linha Carlton, comecemos pela Draught, a mais tradicional dos australianos bêbados. Uma Lager suave, de corpo dourado e sabor encorpado, marcado pelo lúpulo, que lhe dá um final ligeiramente seco. A Carlton Draught é a mais conhecida nos "barbies", os assim chamados churrascos aussies.

A Carlton Dry é assim chamada por ter seu açúcar removido no processo de fermentação num período de tempo mais prolongado, e na matemática cervejeira, menos açúcar é igual a menos carboidratos. Além disso, seu teor alcoólico também é reduzido, 4.2%.

Carlton Cold é a Antarticta Sub-zero australiana. Sem mais. 

A Carlton Mid é feita através de uma combinação de 4 diferentes tipos de lúpulo, que a deixa personalizada, além de um sabor maltado mais característico que traz um equilíbrio entre o amargor e a leveza. Leve aliás também no ABV, de 3.5%. 

A Carlton Black é a Ale da família, num sabor frutado que combina com o malte torrado em tambores especiais. Esta Ale de tons rubis me lembra a paixão de Melbourne por café (lá eu tomei os melhores cafés da minha vida), já que em seu aroma podemos até sentir um tradicional Mocha aussie. Favorita do time!


Já a Victoria Bitter, ou VB, é umas das cervejas mais vendidas na Austrália. Esta cerveja inclusive me chama a atenção por ter o mesmo padrão de servir dos Brasileiros: estupidamente gelada, o que não vemos pelo resto do mundo. Talvez o clima da Austrália ajude um pouco nisso... A VB é intensa, forte, de aroma frutado e sabor amargo do lúpulo no final, balanceado pelo malte doce e suave. Na realidade bem menos amarga que o nome traz.

A Melbourne Bitter foi minha primeira cerveja na cidade, aliás duas. Foi me dada por um amigo que duvidou do meu paladar por Bitters. Os "Melbournianos" são muito regionalistas, logo têm a cerveja que leva o nome da cidade. Mais robusta, intensa e amarga, de corpo mais escuro e espuma bege, manda muito bem!

Crown Lager, conhecida intimamente como "Crownie", é a cerveja da turma que tem uma história complicada. Foi originalmente produzida em 1919 como "Foster Crown Lager ", inicialmente disponível apenas para as personalidades britânicas que visitaram a Austrália. Durante a primeira visita real da rainha Elizabeth II para a Austrália em 1954, Carlton & United Breweries fez o lançamento oficial nesta ocasião como então Crown Lager. Só que essa história até hoje está em discussão, já que dizem que a Foster Crown Lager já era fabricada antes de 1919 e que era amplamente disponível para o público antes de 1954. Enfim... Sua garrafa tem forma exclusiva com seu logotipo cravado, e está no mercado como uma cerveja premium. Como tal, formou uma associação com a Golf Austrália para criar o Crown Lager Social Golf Club. Chique, quem joga golfe é chique. No sabor, só difere das outras lager comerciais por se um pouco mais forte. Sim, Original.

Pure Blonde, cerveja mais leve, baixo amargor, tem 70% menos carboidratos que as comuns e com uma espuma bem rarefeita. Achei normal demais, nada que me fizesse falar que é uma puta cerveja, mas é gostosa, não é sem gosto como as lights por aí. Na realidade, mais uma das lagers da família... dá pra ver de longe que não é minha favorita né!?

Fosters, a minha primeira australiana da vida, que vendia no pub em Londres lá no passado, é a lager comercial, douradinha, leve, gelada e cristalina. Equilibrada no amargor, espuma branca, pode dizer que desce redonda? Sua única e principal característica é que é feita com um levedo diferenciado das outras. É a aussie mais vendida no mundo.

A cervejaria ainda produz outras cervejas do mundo, como uma "filial". O ponto alto da visita foi subir até o topo da produção, numa temperatura interna de mais de 50 graus. A vista de cima dos grandes barris de fermentação é sensacional. Deu até vontade de ficar por ali se não fosse o próximo passo: a degustação.


Depois, coisa óbvia, compra de souvenirs. Porém este tempo na Austrália fechou um pouco minha mão, embora tenha saído de lá com o melhor dos souvenirs de todas as visitas à fabricas da vida:



Assim, o sonho australiano chega ao fim, a vida no Brasil volta aos poucos ao normal. Não foi fácil viver tão longe, largar tanta coisa. Desistir de tudo foi ainda mais difícil, mas puder resgatar o que tenho de melhor da vida: o sorriso do rosto! E, ainda, descobrir algo que, no fim, eu já sabia: A cerveja perfeita não mora na Austrália!

Cheers. MATE!

terça-feira, 2 de julho de 2013

Pequenas Criações Australianas

Há quase quatro meses vivendo uma vida de australiana, começo a me sentir como uma. Por isso, conforme prometido, vamos falar de uma cerveja nata da Austrália Ocidental, ou WA, ou Perth...

Fui selecionada para uma entrevista para um "tasting team" de cervejas locais. Mandei meu currículo cervejeiro, contei minha história e hoje foi o dia da entrevista. Super informal, o assunto cerveja fluiu como sempre. Nada é melhor do que falar de cerveja. Falando de favoritas, me perguntaram das favoritas australianas, e me lembrei da nossa primeira australiana, a James Squire, que coincidentemente foi provada ainda no Brasil há algum tempo e fiz um post todo especial sobre ela, lembram? Ah as coincidências da vida!

Eis que, ainda falando de favoritas, nos vimos preferindo whitebeers, amando Hoeggarden e como um doce souvenir da entrevista, fui apresentada à White Rabbit, uma whitebeer da cervejaria Little Creatures, local de Perth. Melhor entrevista da vida: do lado de casa, clima informal e ainda ganhei uma cerveja. Se nada der certo, já saí no lucro! E como o perfil do trabalho é exatamente provar cervejar, já comecei agora...

A Little Creatures nasceu em 2000, fruto da paixão por cerveja de alguns amigos e uma ideia de uma cervejaria local que fizesse a mehor receita de pale ale. Com sede em Fremantle, bairro histórico de Perth, foi construída com o aval e participação de toda a vizinhança, e é um orgulho para o povo local. Hoje além a fábrica, conta com um enorme restaurante de onde as cervejas saem direto dos barris (gigantes) e um clima de pier-praia-marina no ar, já que a cevejaria fica muito próximo ao porto e no desemboque do rio Swan no mar. Uma delícia de lugar! 

A White Rabbit é de fato muito parecida com a Horggarden citada acima, mas sem o mesmo amargor (15 IBU), o que faz desta uma cerveja uma mais leve, doce e, podemos dizer, redonda. Cerveja de ABV leve (4.5%), longe de parecer com as whitebeers brasileiras, que comumente vem com traços de banana, esta mantem os traços de laranja e coentro, dando um toque herbal, cítrico e diferente no seu retrogosto, que conta ainda com berries. Uma bela exemplar da tradicional cerveja  branca belga, com um corpo amarelo opaco, bem sedimentada, vale uma beeeela chacoalhada no fundo da garrafa pra fazer valer todo o material. Uma cerveja refrescante para um dia ensolarado de vinte e poucos graus no inverno de Perth. Assim disseram os monges belgas que deram a receita - segundo seus criadores.


Ainda, não posso deixar de lado um detalhe, um pequeno detalhe, que deu a graça na garrafa de rótulo simplista, sem muitas informações mas com a graça necessária: gravado no vidro das garrafas de suas cervejas, um pequeno anjo, um cupido, que já tinha visto em algum lugar antes... ah boas memórias!!!

Cheers mate!