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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Cerveja velha de guerra!

Pra falar da perfeita de hoje a gente volta um pouco no tempo... Primeiramente, 2008, o ano em que uma garota de sorriso largo e inglês macarrônico começa a trabalhar em um pub tradicional inglês, pertinho da famosa Picadilly Circus (ou, para os brasileiros atentos e turistas, perto da Lillywhites. Vcs sabem do que falo). Lá que conheci  - provei e odiei – a cask ale.

Cask ales, ou as “Real Ales”, são cervejas não pasteurizadas e não filtradas, condicionadas (inclusive na refermentação) e servidas a partir de um barril sem adição de pressão de nitrogênio ou gás carbônico. Para servir, já que não há pressão, uma torneira especial é utilizada, com bombas manuais ou elétricas – adoro as manuais, que são hidráulicas -  e dão aquele charme ao servir. Por estarem na temperatura ambiente e não terem pressão, apresentam uma carbonatação mais baixa e preservam assim suas características sensoriais. São mais terrosas, denotando o forte aroma de lúpulos ingleses, e os maltes e fermento aparecem nítidos e frescos. 


Na prática, falamos de uma cerveja quente e choca (definição honesta de quem tinha acabado de conhecer uma cerveja “diferente”). Na teoria, falamos da Real Ale, defendida pelos tradicionalistas como a cerveja de verdade. As Cask Ales são a base de toda a tradição cervejeira britânica. Com algumas modernizações à parte, os métodos são os mesmos utilizados há séculos. Esta tradição é tão forte que após sofrer um relativo declínio no final do século passado, um movimento de consumidores que buscava resgatar e preservar esta cultura chamado “Campaign for Real Ale” (ou CAMRA) exerceu com sucesso grande pressão política e cultural no mercado britânico. As Cask Ales hoje trazem até um selo do CAMRA que lhe dão notoriedade e respeito. Hoje, entendendo um pouco mais disso tudo, lembro-me dos festivais do pub e das minhas camisetas de uniforme com este selo que eu nem “conhecia mas hoje considero pacas”. Por enquanto, não temos Cask Ales no Brasil mas....

Eis que entra a Spifire.
Cerveja carregada de história, valor e muito sentimento. Feita pela Shepherd Neame, a cervejaria mais antiga da Inglaterra, que começou sua produção em 1698 (nome de uma de suas cervejas).  A Spitfire foi lançada em 1990, ano de comemoração dos 50 anos da batalha da Grã-Bretanha, para angariar fundos para ajudar os feridos e prejudicados em guerra, como soldados, filhos de pilotos e afins. Seu nome vem do caça britânico Supermarine Spitfire, que ficou famoso pela sua performance, mas principalmente por levar às tropas na Normandia barris de cerveja na segunda guerra. E essa é a melhor parte da história: imaginem que numa guerra, receber suprimentos de primeira necessidade já é complicado, então o que dizer sobre cerveja? Foi quando os pilotos do Spitfire da Royal Air Force (força aérea britânica) tiveram uma idéia... Como o Spitfire tinha suportes sob as asas para bombas ou tanques,  veio a brilhante ideia de substituir as bombas por barris de cerveja. Além disso, com o Spitfire voando alto o suficiente, o ar frio em altitude gelava a cerveja, tornando-a pronta para o consumo no momento da chegada.
Em tempo, uma variação deste método foi utilizar um depósito de combustível de longo alcance, modificado para transportar cerveja em vez de combustível. Esta modificação recebeu uma denominação oficial “XXX”, que, ainda, também dá nome a mais uma cerveja. Conhecem?

Bom, mas voltando a Spitfire em um dos posts mais longs da história do MC.... Uma cerveja do estilo Kentish Ale. Paremos novamente.

Kentish Ale é uma denominação de origem, afinal, na Inglaterra os melhores lúpulos são plantados na região de Kent, mas apenas as cervejas produzidas em Kent podem ser chamadas de Kentish Ales. Ainda, foi em Kent que ocorreu a batalha da Grã-Bretanha, uma batalha aérea entre a Luftwaffe (força aérea alemã) contra a Royal Air Force durante a segunda guerra mundial.

A Spitfire, seguindo este estilo, é uma das mais clássicas e tradicionais cervejas Ale inglesas. Uma infusão de 3 lúpulos de Kent conferem uma bitter autêntica, cor de cobre, baixissima carbonatação, espuma bege e pouco persistente, aroma terroso carregado de frutas e lúpulo. Aliás, quanto lúpulo, de sabor, aroma e origem!

E a novidade é que, mesmo não tendo a Spitfire em cask, agora a teremos no Brasil em barril mesmo, o tal do keg. Já a temos, há algum tempo, engarrafada. Deve chegar por aqui em algumas semanas, o que, acreditem ou não, dá uma bela diferença no sabor, deixando-a mais fresca, já que não precisa ser pasteurizada como na garrafa. Mesmo que seja um pouco mais carbonatada, já que em keg há adição do gás, ainda é a Spitfire velha de guerra! ;)

Para quem tiver a oportunidade de provar a Spitfire em cask lá na gringa, é uma experiência válida e incrível. Nosso paladar – feminino e cervejeiro – amadurece, e hoje aquela quente e choca que me fazia caretas é uma cerveja respeitada e tradicional! Tê-la em chopp aqui será voltar um pouquinho no início da minha paixão, e é um acalanto pra aguardar minha tão esperada próxima viagem ao velho mundo – e velhos tempos.

Cheers!

quarta-feira, 21 de março de 2012

St. Patrick's Day, tour de cerveja e amizade!

Algumas datas são esperadas ansiosamente. E pra mim, o St. Patrick's Day, o Dia de São Patrício, é uma delas. Resolvi que comemoraria da maneira mais irlandesa possível, sob o maior número de tradições: de verde, fazendo um tour pelos principais pub's de São Paulo, onde o objetivo era tomar uma cerveja por local.

Foi assim que comemorei meu primeiro St. Patrick's, lá em Londres há 2 anos. Queria reviver um pouquinho daquela nostalgia. E posso falar? Aqui foi muito mais interessante!
Pra começar, claro, Mulheres e Cerveja sempre à caráter. As camisetas verdes deram o que falar, puxaram assunto e foram alvo de olhares desconfiados e conhecidos (beijos pro pessoal da Cerveja Gourmet!). As amigas como sempre participaram e até os amigos exigiram uma de presente... e eu não sei dizer não, tinha camiseta e baby-look, todos fofos! Alias, momento agradecer à todos pelo apoio: Vaninha, Dani Pioli, Ali, Nick e até a minha mãe - que agora resolveu que acompanha super o blog depois de ganhar a camiseta e desfilar por aí toda toda!

Camiseta para os Homens,
Babylook para as  Mulheres
Após os preparativos, às 14h começou o já programado tour. Eu sabia que não seria fácil, que teria trânsito e que, por ser sábado, teriam filas e mais filas... mas toda esta expectativa foi triplicada! Filas não... horas de espera. Trânsito não... engarrafamento. Pubs cheios não... esquema "sai um pra entrar um". Cerveja não... MUITA cerveja!

o verde invadiu o dia,
dos sapatos e cervejas às... unhas! 
 
Chegamos no O'Malleys cerca de duas e pouco da tarde, e adivinha? Lo-ta-do. Cardápio reduzido, conseguimos um cantinho para sentar e pedir uma demorada porção de fritas e filé aperitivo. Mas a cerveja, rápida e verde, verdinha - assim como a ponta do meu nariz por tradição! Uma Heineken gelada - por incrível que pareça. Duas delas depois e, antes da casa começar a cobrar entrada, nos despedimos do ponto um do tour rumo ao The Blue Pub.

Lá, uma taxa de entrada alta para quem queria ficar alguns minutos: R$31,00. Mas nada como a delicadeza - chamemos assim - feminina. Entramos com um cronômetro: 10 minutos para conhecer sem pagar entrada! Foi o tempo necessário para um amigo e dois raros exemplares da Duff verde, edição especial da Duff para o St. Patrick's Day. Foi o momento do dia. Eu, que ainda não tinha experimentado a cerveja (sério), parei o mundo naquele momento para curtir a long neck puro malte e seu sabor encorpado. Um aroma forte, que me remeteu à primeira vez que coloquei cevada nas mãos. No sabor, biscoito. Ah vai... era a cevada, mas sim, biscoito, que logo logo dá lugar ao amarguinho do lúpulo. Enfim, igualzinha a Duff vermelhinha que eu tomei depois, "pra comparar" (desculpinha...)

Após cerca de 30 minutos, novo rumo: All Black. Só pra ver a fila e dizer "nãããão". E seguimos para a busca de outro Pub. Finnegan's. Cheio e fila. Brew Pub. Oi? "Ah, vamos inovar o tour e tomar uma no Empório Alto dos Pinheiros e então partir pro Queen's Head? Sim!

Lá, chopp Bamberg verde e aquele atendimento eficaz de sempre, sem fila e bem baratinha. Cestinha de pães e conversas femininas depois, 3 quarteirões de caminhada para o Queen's Head que adivinha? Fechado até que esvaziasse um pouco. Um sorvetinho de volta no Empório e rumo àquele que seria o final da noite de acordo com a programação: The Sailor.

Eu trabalho do lado do local, passo todo santo dia ali e me assustei com o que vi. Portas abertas, som no meio da Faria Lima, fila até o posto da esquina. E ainda eram 8:30pm. Paramos um pouquinho, socialização na fila pra ver o que era e o que não era e... Kiaora! Fila média, R$35,00 de entrada e hummm... quer saber? Vamos pra St. Patrick's Party, organizada pelo All Black?

E foi lá que, as oito da manhã do domingo, St, Patrick's acabou. Num galpão na Vila Leopoldina, Leprechauns, potes de ouro, Baileys e muita Guinness - que ÓBVIO que eu entrei no bar pra tirar a minha. A banda tocava U2, a decoração festiva verde com trevos e chapéus, fiz Micheladas verdes no bar para os amigos e a fila de mais de uma hora era regada por esperança, vento frio e Budweiser do posto de gasolina.

Sim, foi perfeito. Afinal, "as coisas boas vêm para aqueles que esperam"!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Panela velha é que faz o quê?

O conceito inicial de férias está em descansar. Mas não é bem isso que ocorre. Esta terceira semana foi a mais corrida – literalmente – até então. Começando a semana em Dublin e terminando na Bélgica, com muitos goles de cerveja entre eles, já tenho muito a contar. Mas resolvi deixar a melhor parte da história para a volta, assim podemos emendar um dos posts de sexta para uma mesa de bar e assim poder entrar em detalhes  sobre as peripécias de Katherine no velho mundo.

Logo que cheguei em Londres e me vi diante de prateleiras de supermercado que mais pareciam empórios, não sabia por onde começar. No famoso “3 for 2” dos supermercados da Inglaterra, a terceira cerveja sairia de graça, então tudo que eu tinha que fazer era me decidir por apenas 3 rótulos.
Fui eclética: uma escocesa, uma russa e uma indiana, estas duas últimas que acabaram ficando na geladeira por um tempo maior visto a quantidade de pubs que tenho visitado.

A primeira provada surpreendeu no primeiro gole. E eu já arriscava dizer que era a cerveja perfeita da viagem. Ainda mantém o posto, tenho que dizer.

Falo da Innis & Gunn, uma ale escocesa de fabricação independente, que tem uma certa história pra contar, mesmo sem nem ao menos 10 anos de mercado. Fundada em 2003, a Innis passou a ser a cerveja britânica engarrafada mais popular no Canadá e a segunda mais popular na Suécia, tendo sido escolhida com a cerveja da cúpula do G8 em 2005. Poderosa é a palavra.

Cerveja fabricada em Edimburgo, tem um processo de produção pioneiro, com 5 fases, entre elas 77 dias de maturação.
 
Uma cerveja envelhecida. Foi o que me chamou a atenção, porque pelo que eu sabia cerveja envelhecida estraga. Mas este processo de fabricação foi descoberto em um acidente irônico: a intenção era criar um whisky escocês com sabor de cerveja, ale mais precisamente. Para tanto, uma cerveja especial foi criada, que seria então armazenada em barris de uísque. Após a cerveja ter sido condicionada nos barris, deveria ter sido descartada,  utilizando-se o mesmo barril para a então maturação do uísque. Os cervejeiros no entanto observaram que o processo teve um efeito agradável sobre a cerveja, e, portanto, o envelhecimento da cerveja se tornou um fim em si mesmo. A Innis é uma cerveja de cor avermelhada com aroma intenso e agradável, uma espuma bem clara e persistente, e um sabor... sensacional! Como o rótulo já avisara, tem notas de baunilha e caramelo, que dão um toque adocicado e frutado, porém nada enjoativo. Uma cerveja de teor alcoólico até alto, com seus 7,4% (Catarina A-D-O-R-A cervejas fortes!). que infelizmente não está a venda no Brasil, apenas no UK e Canadá – mas que obviamente levo na bagagem. Aqui em Londres paguei cerca de £1,80 na garrafa de 330ml, aproximadamente R$5,00.

Segundo os escoceses, esta cerveja, devido às semelhanças no processo de maturação, é um excelente complemento para a maioria dos whiskies.Para mim, uma cerveja que comprova que paciência é de fato uma virtude e que bons frutos nascem de erros e “acidentes de percurso”. Quem nunca se surpreendeu com as reviravoltas da vida que atire a primeira pedra!

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Yes, they have bananas!

Mais um post remoto. E fica difícil escolher uma favorita, cada vez mais difícil. Já se foram 11 dias de Londres, e bem mais de 11 rótulos provados. A cada pub, a cada ida ao mercado, a cada refeição, até a cada parada em casa (neste momento, enquanto escrevo, tomo uma Baltika, russa)... ainda bem que a vida de sightseeing me faz caminhar e caminhar, porque tanta cerveja pode acabar com os atributos da Catarina...

Hoje vou falar não especificamente de uma cerveja, mas também de um pub. O "The Porterhouse". Fica na charmosa Covent Garden, que é um dos meus lugares favoritos em Londres, se parece com algo entre a estação da Luz, Mercadão e sei lá, uma feirinha de malhas de Monte Sião. E num dia mais quente de um verão que ainda não deu as caras, fez uma noite clara maravilhosa. 
A Porterhouse Brewing Co. é na realidade irlandesa - para onde estou indo em algumas horas - e tem entre seus rótulos cervejas próprias como a Oyster Stout, Porterhouse Red e Chiller. No total são 3 Stouts, 3 Ales e 3 Lagers, algumas premiadas inclusive. A companhia tem 5 pubs próprios, além de um hotel. É realmente um mundo a se explorar!

Ao chegar no pub, muito bem indicado pelos amigos que estão me recebendo aqui na cidade, me senti como uma criança em um parque de diversões. Todas as paredes do local - TODAS! - são revestidas por vitrines de cervejas especiais, até algumas brasileiras entram na gama. Por exemplo, acompanhando o trabalho da Renatinha, que falou sobre a cerveja especialmente feita para o casamento de William e Katherine (a real), lá encontrei a cerveja feita para o casamento de Charles e Diana, de 1981! 

São 5 andares, divididos em diversos ambientes e com bares separados. Uma área externa na frente do bar fica bem de frente para o Museu do Transporte público de Londres e para o Covent Market. E digo mais: muita gente bonita. Não sei se estava mais extasiada com a paisagem dentro ou fora do pub.

Na hora de escolher, minutos e minutos se passaram. Um menu simples e extenso (menu este que veio na bolsa como um souvenir autorizado. Até porque, segundo o bartender, se ele não deixasse eu iria levar do mesmo jeito), separando as cervejas por país. Todos os preços entre £3 e £7, uma outra que ia além disso. Optei por começar por uma inglesa um tanto curiosa: Wells Banana Bread Beer. Sim, banana. E de fato contém banana. Aliás, de fruitbeer aqui não faltam opções. Até de manga tinha. Sério, manga?

A Banana Bread, da cervejaria Wells & Youngs,  é mais banana que cerveja, mas que dá um resultado muito bom. Doce e intensa, tem uma cor acobreada forte, porém com transparência. A espuma é encorpada, cremosa (creme/espuma...). O aroma de banana prevalece, com um quê de baunilha e também denota um caramelo típico das ales. Maltada e amarga na medida para não contrariar a harmonia com a banana, a Wells é uma cerveja no mínimo interessante. Mas o fato é: não é possível pedir outra garrafa após 500ml dela. Garrafa esta que saiu por módicos £4,20 (menos de R$12).


Segui então com uma weissbeer alemã, na sequência uma Früli, uma Stout pra não perder o costume e uma Guinness porque você sabe né...

Não sei se pelo interior ou pelo exterior, mas eu prometi ainda voltar neste pub antes da volta. E comigo promessa é sempre dívida!

Cheers mates!

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Strawberry fields forever!

Fazer um post sobre Londres e a infinidade de cervejas e momentos que tenho aqui, é pedir pra fazer um daqueles textos intermináveis. Mas eu prometo ser concisa! E como dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, esta traduz o "british way of life":

O famoso fish'n'chips acompanhado de Guinness.

Lógico que tenho muito a contar, sobre os preços das cervejas aqui, a oferta, a qualidade e infinidade de rótulos que vemos apenas nos melhores empórios do Brasil sendo vendidos aqui na prateleira do supermercado... enfim! Londres é a conhecida capital de bebedores de cerveja (e todas as outras bebidas alcoólicas), onde muitas das melhores Ales nasceram, as tradicionais Porters e Stouts, a terra das famosas pints e também dos conhecidos mundialmente pubs. Mas esta história eu já contei.

Aqueles que me conhecem também sabem a relação de amor que eu tenho com esta cidade, que é tal qual a relação de amor da Renatinha com São Paulo: falem o que for, falem do cinza, falem da frieza do britânico, falem da monarquia, falem do sotaque muitas vezes incompreensível, falem da burocracia, mas Londres é meu eterno refúgio, o lugar onde eu sei que tudo vale a pena e que eu ando sorrindo. Mas, surpreendentemente, não mais o lugar onde eu moraria. Voltar apenas de férias me fez perceber que minha vida se encontra num momento perfeito e que é no Brasil mesmo que meu destino - e meu coração - está. Sem essa de cartomante. Catarina e Renatinha tomarão incontáveis outras cerveja e continuarão na busca juntas.

E por falar em cerveja, relutei um pouco, mas não vou começar esta série de posts remotos com uma típica Ale britânica. Hoje vou - FINALMENTE - falar de uma belga, a tal da fruitbeer que eu tanto esperei para tomar novamente: a Früli. Me fizeram até passar vontade, é verdade, mas nada como tomar a cerveja mais esperada logo no primeiro dia de viagem, numa feliz coincidência! Na minha primeira visita ao supermercado, ao entrar no corredor de cerveja, uma prateleira repleta de long-necks de Früli sorriu pra mim. E o preço deu aquela piscadela: £1,69 (ou cerca de R$4,30).

Ao chegar em casa e colocar a cerveja para gelar, já podia sentir os carocinhos de morango na boca...

A Früli infelizmente não é vendida no Brasil, mas, para os apreciadores mais sêniores de cerveja isso não é de fato um problema, já que em termos de sabor ela não tem muito de especial. Uma cerveja com adição de suco de morango na fermentação, que a deixa doce e com mais gosto de suco de morango do que de cerveja propriamente. Já para as mulheres nem tão amantes de cerveja, que adoram um drink doce com baixo teor alcóolico, aí sim  a Früli deixa vontade. Eu diria que é como a Malzbier, uma cerveja doce, até enjoativa, mas deliciosa no meu ponto de vista! Cerveja de menininha, que comparada à outras fruitbeers é a mais doce e frutada. Inclusive, alguns dizem que, como a Malzbier, só é considerada cerveja pelo processo de fabricação.

Cerveja produzida pela cervejaria belga Brouwerij, com teor alcoólico de 4,9% (não tão baixo como a Malzbier citada acima), a Früli é uma mistura de 70% de cerveja branca (de trigo, assim como a Hoegaarden) e 30% suco de fruta, no caso, de morango. Esta cerveja ganhou a medalha de ouro no International Beer Competition em 2004 e em 2009 foi anunciada como o "World's Best Fruit Beer" pelos juízes do World Beer Awards. Tá vendo? Não era à toa que eu falava tanto desta danada!

Posso dizer que alguns pontos (gastronômicos) da minha viagem já foram concluidos. Em menos de uma semana, já tomei algumas cervejas que há tempos não tomava, já tive minha Guinness perfeitamente tirada, já matei a vontade da Früli - e outras sobremesas - e a versão britânica da Catarina (Katherine) já fez sua presença. Acho que teremos muito mais que 30 dias de história pra contar por aqui!

Cheers mates!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Beber, Servir, Amar

Cerveja, antes de ser uma paixão, antes de ser inspiração, era apenas um hábito. Um hábito de festas, de bar de faculdade, de churrascos onde a carne de baixa qualidade era 10% da compra e as latinhas semi-refrigeradas eram a atração. Mas depois de voltas que a vida deu, cerveja – e outras bebidas - virou trabalho, e é um pouco disso que vou contar.

Na minha temporada de 1 ano em Londres, entre estudos, passeios, baladas e muita diversão, trabalhei num típico pub britânico, onde pints eram servidas com fish’n’chips, festivais de vinhos e cervejas Ales faziam o calendário e mulheres bebiam exageradamente shots de tequila, apple sours ou sambuca (ah sambuca!). Sim, lá é comum ver mulher bebendo muito mais do que homem. E o final da noite – por volta da 1h da madrugada – é marcado por garotas em suas micro-mini-saias, laços, saltos, penteados e cores neon caídas pelos pontos de ônibus, calçadas, ou sendo atendidas prontamente pelos policiais e carros de resgate. Apenas um sábado de rotina na Inglaterra.

Já no quesito happy-hour, os londrinos são os melhores: às 18h pontualmente estão nos pubs, com suas famosas pints e taças de vinho diárias. Este público, mais adulto, é mais responsável – aliás o rigor da legislação da Inglaterra impressiona: não se dirige alcoolizado em hipótese alguma e, como a supervisão é pesada, isso é seguido à risca. E a noite termina cedo porque o tube (metrô) fecha cedo, por volta de meia-noite.

Foi uma época de beber muito. Mas melhor ainda, de beber bem, de conhecer novas bebidas, sabores e estilos. Bons vinhos são muito baratos, dispensando a dor de cabeça do dia seguinte. E eles fazem presença em openhouses, festas fechadas e reuniões de amigos, comuns por lá, acompanhando as famosas latas de cerveja do tamanho das pints, que eu não gostava por esquentarem rápido demais.  As ciders (cidra, ela mesmo, aquela baratinha do réveillon na Praia Grande) chamaram minha atenção. São variações, sabores e marcas diversas. Eu, que demorei para me adaptar ao sabor e temperatura das cervejas Lagers, me identifiquei bastante com elas, servidas em copos de pint (534ml) com muito gelo. Refrescante e leve, minha favorita era a Koppaberg Pear, garrafa de 500ml, cidra sabor pera. Mas a campeã de vendas é a tradicionalíssima Magners de maçã, fruta pioneira da bebida.

Vinho para quem é de vinho, cidra para quem é de cidra, mas aqui a gente fala de cerveja, não é?

Para mim, que tinha conhecimento limitado a gostar muito de Malzbier (ainda gosto) e saber que nossa cerveja é do tipo Pilsen, confesso que estranhei bastante as Lagers servidas nos taps e, principalmente, as de tipo Ale. Mas o tempo é o melhor amigo da técnica. Comecei a trabalhar no pub – The Moon Under Water, da rede J.D.Wetherspoon - com menos de 1 mês em Londres, inicialmente retirando pratos e copos, mas, mesmo sem muito saber falar inglês, fui arrastada para o bar logo de cara (para brasileira simpática e sorridente, inglês era “só” um detalhe). Foram dias de luta, a ponto de confundir Jack Daniels com Jagermeister, mas eu cheguei lá.

Aprendi a diferenciar por cor as cervejas lagers dos taps (draught beers): Coors Light, Forsters, Kronenbourg 1664, Carling... aprendi a diferenciar sabor, a defender cada uma delas de acordo com a busca do freguês: a mais leve, mais gelada , teor alcóolico... Habilidosa, tirava até 3 pints ao mesmo tempo, sem excesso de colarinho, que para eles é head. Era relativamente simples... tal qual um chopp. A Stella tinha seu procedimento mais peculiar, já que a taça em formato ovalado complicava o meio de campo...

As cervejas Ale eram um episódio à parte... “too bitter beers” para o meu paladar, encorpadas e amargas em grande parte, quando adocicadas era caramelizadas ou com notas de café, chocolate e por aí vai... (vamos falar muito sobre isso ainda). Quando não havia festival ou ação promocional, as frequentes no pub eram a Greene King IPA, Abbot, Pedigree, John Smith’s... estas, mais simples e comerciais, mas mesmo assim uma academia pra tirar: bombar o tap no ângulo certo, velocidade e força certa, e por muitas vezes o maldito barril estava no final e era só espuma. Comum, tanto que o tap era especial com uma bandeja para que pudéssemos sempre retirar o excesso de espuma ou deixar descansando. Em épocas de festival eram até 20 marcas diferentes, e os fregueses davam suas notas. Isso era divertido, ver a percepção de cada um para as Ales do dia. Só que cada dia eram 2, 3 novas e eu, desavisada, sempre me perdia. Afinal, num país cujo sotaque é o pior e um cidadão em seus 60 anos, falando na velocidade da luz pede uma cerveja que nunca se ouviu o nome e nem se sabe que está servindo: confusão na certa. Até o dia que eu aprendi a checar as Ales do dia e memorizar seus nomes. Algumas tinham o bico em forma de “chuveiro”, tinha que deixar descansando (settling down), eram servidas com ou sem colarinho... foram sextas e sábados de luta e copos quebrados. Queria me irritar? Half-pint. Acaba com a graça da brincadeira. Pior que isso, degustação dos festivais em copos de 1/3 pint. Praticamente um copo americano, faltavam as saudosas listras no vidro...

E então ela, a Guinness. Era a favorita do Nick, um – queridíssimo - colega do pub, que me ensinou a aprecia-la. Nas primeiras vezes, eu a achava tão forte que dizia que tinha gosto de carne. As exatas palavras dele foram : “No, it’s a whole meal in a glass!” (não, é uma refeição inteira num copo!). Lembrar do Nick é engraçado, eu sempre dizia que no dia que eu entendesse o que ele falava, eu entenderia qualquer idioma... Enfim, a Guinness! Dona de uma pint toda especial, com seus jeitos e trejeitos ao servi-la, tem porte, tem marca, tem presença. Tanto que a própria Guinness acompanha os bartenders ensinando-os como servi-la perfeitamente de tempos em tempos. E seus assíduos consumidores sabem como deve ser, e ficam em cima. Experimente servir uma Guinness espumante à um britânico ou irlandês e verá a mesma espuma sair da boca deles! Pressão total, medo. Mas, de tanto ver, ouvir e aprender com o Nick, nem foi assim difícil. A Guinness perfeita vem de um copo perfeitamente limpo, seco e nunca quente ou recém-lavado, colocado de ponta-cabeça em prateleiras separadas. Antes de abrir o tap, respire fundo e saiba que não é uma cerveja qualquer! O copo –com a logo da Guinness, que é estampado em local estratégico – deve estar a 45 graus, com o bico do tap dentro do copo, quase a ponto de tocar o conteúdo. Com o copo cheio na exata altura do logo (ou 2/3 do copo, que como é em formato de tulipa é difícil quantificar certamente), PARE! Espere, assista o movimento do líquido escuro e denso tomando forma. Quando todo o liquido estiver finalmente rubi, sem muito balanço volte o copo reto para o tap, abrindo-o na posição oposta (da mesma forma do colarinho das lagers). A Guinness então será servida com mais vida, o fundo do copo completamente homogêneo e rubi, seu meio em movimento e um perfeito dedo de colarinho. Era sempre minha melhor criação!

Hoje, vou frequentemente à pubs como o O’Malleys e sinto o desgosto de uma pint de Guinness mal tirada. E aprender a degusta-la foi outro grande passo. As mulheres britânicas tem o hábito de colocar Syrup Blackcurant na Guinness, deixando-a mais adocicada. É como um chopp com groselha. Eu também comecei assim, mas com o tempo me tornei uma apreciadora da bebida em sua forma real.

Entre coisas novas, nem tão novas ou apenas diferentes, tinha as cervejas com menta ou blackcurant, a Strongbow, uma draught cider, mais forte, servida no tap com as mesmas conveniências das lagers, e, um dos meus velhos hábitos, a Snake Pint, que era uma mistura de Lager, Strongbow e Blackcurant. Teor alcoólico alto, fazia muito sucesso nos bares australianos, como os Walkabout da vida... Aliás, era proibido servir Snake Pint se não houvesse licença para tal. No meu pub não podia.

E, claro, os zilhões de diferentes rótulos de cerveja de garrafa de todo o mundo, com destaque das cervejas do leste europeu, com muita saída, como Tyskie, Lech, Efes, etc. Além, claro, das muito vendidas Corona, com limão na boca da garrafa, San Miguel, Budweiser e Beck’s.

De volta ao Brasil, com um sentimento de nostalgia ao relembrar tudo que vivi nas terras frias da rainha e com realidades (financeira, climática, social e com a mente muito mais aberta) tão diferentes daquela época, com toda esta “carga” ficou impossível não dar continuidade na vida de bar. O gosto pela bebida, em especial pela cerveja, me levou à diversas questões, em especial da relação masculina alusiva à cerveja, e em quanto este ponto de vista é falho. Ver tantas mulheres, servi-las e ver suas conclusões abriu um mundo de indagações e sede. De cerveja e de conhecimento!

Foi um post longo, mas também dividir uma experiência tão intensa como essa não poderia ser tão breve.

Cheers!